2026 abriu com um sorriso - e depressa se torceu. Crise da habitação, aperto financeiro, guerras, combustíveis e alimentos em escalada, poder de compra em queda, inflação a ganhar força, economia sob pressão e famílias em privação. A incerteza instala-se como regra, a prosperidade torna-se uma palavra cada vez mais rara e os dias avançam numa malha frágil de previsões que oscilam entre o otimismo e o pessimismo. Quem é que ainda se atreve a falar do futuro?
2026 sob pressão: previsões, instabilidade e o fator Trump
No arranque do ano, João Duque, economista e professor catedrático de Finanças, participou em duas palestras onde assumiu um tom confiante. "É um ano com boas perspetivas, boa cara, boas expectativas de crescimento", disse então. Mas deixou uma ressalva determinante: haveria alguém com capacidade para estragar tudo - o senhor Trump. "Dito e feito." Entre guerras, orientações políticas e um conjunto de inconstâncias e inconsistências, o pressentimento confirmou-se. "Trump não faz a mais pálida ideia de como vai sair disto, aquela cabeça ninguém consegue perceber." E, de repente, o Mundo virou-se do avesso.
Para João Duque, há dois temas que comandam este cenário: o tempo e a imprevisibilidade. "Quanto mais tempo passa, mais se agravam os preços, mais problemas vamos ter, mais crises se instalam, mais sérias serão as consequências." A inflação está a acelerar e as projeções que apontavam para valores a rondar os 2% podem cair por terra; há poucos dias, o Instituto Nacional de Estatística indicava 3,4% de inflação no mês passado.
Inflação e juros: o aviso de João Duque e o papel do BCE
"A inflação vai disparar e o Banco Central Europeu acabará por subir as taxas de juro." O professor descreve um país a perder vigor: combustíveis em subida, transporte aéreo mais caro, turismo a abrandar, hotéis a sentirem o impacto, fertilizantes e energia a encarecerem, e a alimentação a atingir montantes em euros nunca antes vistos. E a guerra, acrescenta, funciona como uma nódoa que se infiltra, sem deixar o Mundo descansar.
Apesar do quadro carregado, Luís Aguiar-Conraria - economista e professor catedrático, presidente da Escola de Economia, Gestão e Ciência Política da Universidade do Minho - procura manter uma visão otimista. Recorda que a economia encontra sempre forma de operar e que, mesmo em cenários instáveis e extremos, surgem alternativas. Comentava recentemente com um amigo que, desde 2007-2008, vivemos num ciclo quase contínuo de crise. A sequência é conhecida: crise financeira internacional, crise da dívida soberana, o período da Troika, políticas de austeridade e uma recessão prolongada.
Depois, chegou a Covid: o PIB caiu a pique; agora, juntam-se Trump e as suas decisões, as guerras e os conflitos. "Apesar de tudo, fomo-nos aguentando. Este é o nosso novo normal", conclui. A crise da habitação é o elemento mais recente, mas que, no seu entender, "atinge uma pequena minoria dos portugueses"; e os efeitos da guerra no Irão "não são muito diferentes de quando começou a guerra na Ucrânia."
Aguiar-Conraria não pretende suavizar a realidade - até porque há perda de rendimentos e crises efetivas -, mas insiste num ponto: a economia continua de pé. "É deixar a economia funcionar que ela consegue reagir." E, em paralelo, proteger quem está mais exposto. "A melhor forma de reagir é sermos solidários uns com os outros, apoiar as pessoas que precisam."
Num ambiente de instabilidade profunda, abrem-se fraturas sociais; medir tudo com a mesma régua é mais simples, mas falha na precisão e na justiça. Ana Paula Marques, doutorada em Sociologia e presidente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, olha para as várias camadas sociais neste contexto volátil. O desfecho, diz, é fácil de antecipar: "Entraremos numa maior amplificação das desigualdades sociais."
O fosso tende a aumentar e a polarização torna-se difícil de evitar. Desde logo porque a classe média baixa fica apertada pelos custos de vida e pela especulação: contas da casa, empréstimos e rendas empurram o país para o topo dos mais caros na habitação (em Lisboa, já ultrapassa o valor do salário mínimo); os combustíveis sobem, mantêm-se elevados e atingem patamares sem precedente. "É um processo bola de neve e a classe média baixa sofre muito com estes processos de inflação que se acentuam constantemente", sublinha.
País espremido, população entalada
Mesmo com um cenário internacional turbulento e com preocupações económicas no quotidiano, 2026 começou com um otimismo moderado entre os portugueses, refletido em algumas sondagens: cerca de 40% da população esperava um ano melhor do que 2025, enquanto à volta de 30% assumia maior pessimismo, antecipando um agravamento. Este otimismo era superior ao observado na Europa, sobretudo nas faixas mais jovens.
Aguiar-Conraria chama a atenção para o risco que considera mais perigoso: "O mais grave é o desemprego disparar, aí é que as pessoas ficam sem chão." Defende apoios diretos, em dinheiro, para quem precisa de facto; os instrumentos de solidariedade social existem e, se a vida piora, acaba por se repartir o sofrimento. "Não consigo entrar na narrativa de que o Governo, fazendo alguma coisa, permite-nos sair disto. É uma crise real, é um choque real, o aumento dos preços não é culpa do nosso Governo." Mesmo num cenário-limite - se o estreito de Ormuz fechasse para sempre -, não antevê um colapso total. "É uma questão de organização para a economia encontrar alternativas." Em três, quatro, anos, garante, a economia ajusta-se e cria novas soluções: é assim que funciona.
Os números do consumo essencial também mostram a pressão: nos primeiros quatro meses deste ano, um cabaz alimentar com 63 produtos essenciais ficou cerca de 17 euros mais caro. Na última semana de abril, custava 258,52 euros, um dos valores mais elevados desde 2022.
"Quando começar a chegar aos salários vai ser brutal", alerta João Duque. Quando chegar o momento, no início de cada ano, de pedir novas atualizações salariais, o país voltará a contorcer-se. Ainda assim, olha em redor e nota restaurantes cheios e estradas sem alívio visível no tráfego automóvel. Não identifica diferenças marcantes entre tempos de abundância e tempos de aperto. "Há uma proteção do consumo e uma redução da poupança que mantêm a atividade económica."
O discurso público, muitas vezes, tende a achatar diferenças entre grupos sociais. "A classe com poder de compra confortável aguenta-se durante um certo tempo, mas não é a maioria, é um segmento da sociedade", observa Ana Paula Marques. E insiste que é preciso olhar para quem fica fora do radar e não esperar que as franjas mais vulneráveis se revejam em mensagens repetidas - sobretudo pela classe política. "Muitas vezes, falam para um país irreal, que não transmite a realidade da maior parte das pessoas. E é uma realidade muito dura." Há pobres cada vez mais pobres, jovens a entrarem na vida profissional com enormes dificuldades e famílias em privação extrema, incapazes de comprar bens essenciais.
Em sentido contrário, surgem receitas divulgadas aos poucos por grandes empresas - como petrolíferas - que veem os rendimentos crescer. "Uma acumulação obscena, diria, por parte de setores económicos que estão a espremer a população." À medida que a vida se torna insustentável, também se instala um sentimento de injustiça. E há uma dimensão menos discutida: "Temos uma parte da economia subterrânea, de cerca de 20%, que explica que haja almofadas informais e que não leva a uma rutura económica e social maior, que permite que as famílias tenham rendimento", recorda a professora.
A realidade é intrincada. Catarina Machado, educadora financeira, deixa um conjunto de orientações para lidar com tempos tão incertos. O primeiro passo é registar tudo o que se gasta - seja um café, seja pão. "A maioria das pessoas descobre que gasta um valor surpreendente em pequenas despesas que nem se lembrava de ter feito", explica. Vale a pena cancelar subscrições ativas mas sem uso, renegociar pagamentos mensais (telecomunicações, seguros, eletricidade, gás). "A maioria dos contratos tem margem para baixa", alerta. Recomenda ainda rever o crédito habitação e repensar os transportes do dia a dia. Abastecer quando o depósito ainda vai a meio, em vez de esperar pelo “vermelho”, dá liberdade para escolher o posto mais barato no percurso habitual.
Sugere também planear as refeições antes das compras para cortar despesas desnecessárias, refletir antes de comprar e evitar decisões importantes sob pressão - porque, regra geral, ficam muito caras. E criar poupança, mesmo pequena: 10 ou 20 euros por mês numa conta separada podem bastar para começar. "O valor importa menos do que o hábito, porque é o hábito que cria segurança ao longo do tempo", frisa.
Num país espremido, com os mais frágeis cada vez mais apertados e um clima volátil como não há memória, Ana Paula Marques partilha, sem invocar estudos ou evidência científica, a perceção do terreno. "Do que vou vendo, há ainda um pouco a perceção de que as coisas ainda não chegaram cá e que haverá apoios e subsídios da parte do Estado." Nota consumo mais contido, mais contas feitas e famílias a esticar cada euro.
Em novembro do ano passado, no aniversário do ICS, a socióloga fez um discurso de esperança num quadro de desumanização crescente. A esperança, explica, funciona como recurso para proteger a sanidade mental e manter capacidade de ação e combate. Continua a acreditar nela como uma espécie de muleta quotidiana em tempos exigentes. "Há capacidade do ser humano se superar, acionar recursos, ter consciência dos seus direitos e ser crítico para exigir a quem governa as contrapartidas do qual é contribuinte." Sem perder de vista, ainda assim, que nada cai do céu.
DICAS
De Catarina Machado
Educadora financeira
Fazer as contas a uma semana de despesas
Durante sete dias, registar tudo o que se gasta, mesmo o café e o pão. Mais do que cortar, este exercício serve para perceber para onde está a ir o dinheiro.Cancelar subscrições não usadas há mais de um mês
Streaming, ginásios, aplicações, revistas digitais, serviços de nuvem, jogos. Percorrer o extrato do cartão e cancelar tudo o que esteja parado. É das poupanças mais rápidas que existem.Renegociar o que se paga todos os meses
Telecomunicações, seguros (automóvel, casa, vida), eletricidade e gás. A maioria dos contratos tem margem para baixar, sobretudo quando se liga a dizer que se vai mudar de operador ou seguradora. Reservar uma manhã para isto, uma vez por ano, pode poupar várias centenas de euros sem alterar absolutamente nada no estilo de vida.Rever o crédito habitação
Quem tem crédito a taxa variável deve comparar regularmente o spread com outros bancos. Uma transferência de crédito pode reduzir a prestação mensal de forma significativa, e os bancos estão hoje mais disponíveis para negociar para manter clientes. Vale também a pena perceber se faz sentido fixar a taxa, consolidar créditos ou aumentar o prazo, sempre com cuidado para não aumentar demasiado o custo total do crédito ao longo do tempo.Rever formas de deslocação
Juntar várias tarefas numa só saída, partilhar boleias para o trabalho com colegas, usar transportes públicos em deslocações urbanas ou bicicleta em percursos curtos. Cada deslocação de carro evitada poupa em combustível, desgaste e estacionamento. Em zonas com boa rede de transportes, o passe mensal sai quase sempre mais barato do que o custo de usar o carro todos os dias.Encher o depósito a meio, não no vermelho
Encher a meio dá margem para escolher o posto mais barato no percurso habitual - aplicações como o Preços Combustíveis Online (da DGEG) permitem comparar preços em tempo real. Em viagens longas, evitar parar nas autoestradas, onde o combustível costuma ser substancialmente mais caro.Planear as refeições antes de ir às compras
Ir ao supermercado sem lista é a forma mais rápida de gastar mais. Planear as refeições da semana, fazer lista e ir com o estômago cheio ajuda a evitar compras por impulso e a reduzir o desperdício. Comparar preços por quilo ou por litro, em vez de olhar apenas para o preço total da embalagem, é também uma forma simples de perceber onde realmente se poupa.Usar o frio (e o congelador)
Cozinhar em maior quantidade e congelar em doses individuais reduz o desperdício alimentar e diminui o número de refeições compradas fora ou por entrega. É também a melhor forma de aproveitar os frescos antes de estragarem.Antes de comprar, perguntar se já tem algo que sirva
Roupa, eletrodomésticos pequenos, livros, brinquedos. Antes de comprar novo, vale a pena ver se já tem algo em casa que cumpra a função, ou se existe alternativa em segunda mão.Evitar decisões grandes sob pressão
Quando o aperto é grande, é tentador recorrer a soluções rápidas: cartão de crédito, crédito pessoal, créditos rápidos online. São, quase sempre, as decisões mais caras a longo prazo. Antes de avançar, vale a pena esperar 48 horas e pedir uma segunda opinião. As decisões financeiras tomadas em pânico raramente são boas decisões.Criar uma pequena reserva, mesmo que simbólica
Uma reserva de 200, 300 ou 500 euros faz uma diferença enorme quando surge um imprevisto, um eletrodoméstico que avaria, uma despesa de saúde, uma reparação no carro. Começar com o que se conseguir, mesmo que sejam 10 ou 20 euros por mês, numa conta separada.
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