Há algo de estranho na forma como a memória funciona. Peça a alguém que descreva a avó e é provável que lhe faltem palavras; mas basta falar do modo como ela lhe fazia uma festa na cara e, de repente, há qualquer coisa que se altera na expressão.
A recordação não aparece como um conjunto de dados, mas como uma sensação - quase como se fosse a própria face a “lembrar-se”.
Durante muito tempo, a ciência não soube bem como enquadrar experiências deste tipo. O toque foi arrumado na gaveta dos sentidos, útil para distinguir seda de lixa ou quente de frio.
No entanto, um artigo recente defende que temos observado o toque pela ponta errada do telescópio.
Segundo os autores, o que mais importa não é o que o toque nos informa sobre o mundo, mas aquilo que faz à nossa vida interior - por vezes, para o resto das nossas vidas.
O toque molda a memória emocional
Este novo trabalho reúne décadas de resultados dispersos - vindos da neurociência, da psicologia, da fisiologia e da investigação clínica - e organiza-os numa visão única e consistente.
Os investigadores apresentam um conceito chamado memória tátil afetiva. Pode soar técnico, mas descreve algo muito reconhecível.
A ideia é que um toque com significado permanece connosco mais tempo do que as sensações banais do dia a dia, apesar de a ciência só agora estar a começar a explicar porquê.
Nem todo o toque é igual
Para perceber isto, ajuda saber que a pele tem diferentes tipos de fibras nervosas - e que algumas estão especialmente orientadas para um toque suave e cuidador.
Estas fibras reagem melhor a um contacto lento e quente, como quando um pai acaricia o filho com calma ou quando um parceiro toca de forma terna. Em contrapartida, quase não respondem a gestos rápidos e utilitários, como varrer migalhas de uma mesa.
Isto sugere que o corpo distingue dois tipos de toque: um serve para lidar com o mundo físico; o outro liga-se de forma directa à esfera emocional.
Uma memória que se esconde no corpo
É aqui que o artigo dá a sua volta mais intrigante. Os autores propõem que, ao recordarmos um toque com significado, não estamos apenas a reproduzir uma gravação arquivada no cérebro.
Acontece algo mais inesperado e mais íntimo: o próprio corpo pode entrar no processo da recordação, reencenando em parte a forma como o toque original foi sentido.
“Pode ser que, quando nos lembramos de um toque com significado, o cérebro reative vestígios de como essa experiência foi sentida no corpo”, disse a Dra. Laura Crucianelli, da Universidade Queen Mary de Londres.
Este tipo de memória não é o que normalmente se estuda. Memórias visuais podem ser analisadas como fotografias. Memórias verbais podem ser transcritas.
Já uma memória de toque, nesta perspectiva, aproxima-se mais de uma repetição física parcial - ténue, mas real - distribuída pelos mesmos sistemas que processaram a sensação original.
O toque constrói confiança e segurança
O que é que tudo isto tem a ver com a forma como uma pessoa se desenvolve? Segundo os autores, tem imenso.
“Um toque reconfortante não desaparece simplesmente; pode tornar-se parte de nós”, afirmou a Dra. Crucianelli.
“Por meio de uma interacção entre sinais sensoriais e redes cerebrais emocionais, as experiências de toque podem ser lembradas de forma consciente e inconsciente, moldando o quão seguros nos sentimos, como criamos laços com os outros e como navegamos as relações ao longo da vida.”
Esta afirmação sugere que a sensação vivida de segurança - o alicerce básico da confiança e do apego - é construída, em parte, por memórias táteis acumuladas que actuam sobretudo abaixo do nível da consciência.
Muito antes de uma criança conseguir dizer que é amada, já está a receber essa mensagem numa linguagem que o seu sistema nervoso compreende na perfeição.
O toque emocional tem sido ignorado
Durante décadas, a ciência da memória concentrou-se no visual e no verbal. Imagens e palavras são “arrumadinhas”: podem ser apresentadas num ecrã, evocadas e avaliadas.
O toque é mais difícil de estudar. Não é simples criar uma experiência controlada sobre algo como um abraço. O resultado é que o toque - sobretudo na sua dimensão emocional - tem sido um ponto cego.
Os especialistas sempre souberam que é importante, mas os mecanismos por trás do fenómeno ficaram espalhados por áreas que raramente conversam entre si.
“O toque afectivo tem sido largamente negligenciado na investigação da memória. Mostramos que merece um lugar central na forma como entendemos o cérebro emocional”, disse a Dra. Crucianelli.
A principal contribuição do artigo é desenhar o mapa: ligar os pontos entre as fibras nervosas especializadas da pele, as regiões cerebrais envolvidas na emoção e na recompensa, e os sistemas que guardam e recuperam as experiências.
Implicações do estudo
O modelo tem alcance prático. Problemas que vão desde perturbações de ansiedade até dificuldades de apego e certos tipos de trauma envolvem alterações na forma como o toque é processado e em como as memórias emocionais são formadas e recuperadas.
Ter um enquadramento teórico mais claro dá aos clínicos e investigadores algo mais concreto com que trabalhar.
Há também fios culturais mais amplos a puxar. Os autores assinalam algo que parece particularmente relevante neste momento.
“Mesmo as formas mais subtis de toque podem deixar marcas duradouras na forma como pensamos, sentimos e nos relacionamos com os outros”, escreveram a Dra. Crucianelli e colegas.
“Este trabalho mostra até que ponto as nossas relações estão enraizadas numa experiência física e incorporada.”
O que podemos estar a perder
Hoje, muitas relações acontecem através de ecrãs, e esta mudança tornou a comunicação mais fácil e mais constante.
Não há nada de errado com esta transformação por si só, e ela ajuda as pessoas a manterem-se ligadas à distância.
Ainda assim, uma parte importante da ligação humana continua a depender do toque físico. Quando ele falta, não existe um substituto completo - mesmo que mensagens e videochamadas pareçam calorosas e cuidadoras.
Sem toque, uma pequena mas significativa parcela da proximidade pode ficar por cumprir, algo que a interacção digital, por si só, não consegue substituir totalmente.
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