Portugueses detidos em El Rodeo I em condições desumanas
O Comité Pela Libertação dos Presos Políticos (ClippVe) denunciou que dois cidadãos portugueses estão detidos na prisão de El Rodeo I, na Venezuela, sujeitos a condições desumanas e a várias restrições, defendendo que são necessárias “ações diplomáticas ativas e firmes” para garantir a sua libertação.
"Em El Rodeo I há dois portugueses em condições horríveis, tal como os venezuelanos, e o que podemos dizer é que, apesar do inferno que eles vivem, os presos políticos venezuelanos têm tentado ajudá-los dentro do possível", disse, na segunda-feira, a porta-voz do ClippVe, sem revelar a identidade dos detidos.
Andreína Baduel prestou declarações à agência Lusa junto à Provedoria de Justiça, em Caracas, local onde representantes da ONG e familiares se concentraram para protestar contra alegadas torturas, a ausência de cuidados médicos e para exigir a libertação dos presos políticos.
"Estão numa cela de 2x2 metros, com apenas uma cama de cimento e uma latrina (...) têm restrições de alimentação, medicação e hidratação e não lhes permitem [fazer] nem um telefonema", explicou.
Segundo Andreína Baduel, em abril, mais de duas dezenas de estrangeiros detidos nessa cadeia manifestaram-se para exigir visitas consulares, mas, afirmou, "e a resposta [das autoridades] foi torturá-los".
Apelos à comunidade internacional e a “ações diplomáticas ativas e firmes”
"Encontram-se em condições horríveis, tal como os venezuelanos, e é por isso que a comunidade internacional desempenha aqui um papel muito importante, pois o regime está a tentar impor uma narrativa totalmente contrária à realidade. Eles falam de reconciliação e de paz, mas continuam a torturar e a brincar com a vida dos presos políticos", disse.
A porta-voz sustentou, por isso, que "a comunidade internacional deve, no âmbito da diplomacia, exercer toda a pressão possível para salvar a vida dos seus cidadãos" e, em paralelo, contribuir para apoiar os venezuelanos.
"Temos estado em contacto com o corpo diplomático no nosso país, incluindo a chefe da delegação da União Europeia, a quem pedimos que os países que têm presos políticos na Venezuela formem uma coligação humanitária internacional para lutar pelos seus presos políticos e pelos venezuelanos", disse.
Baduel voltou a sublinhar que "hoje mais do que nunca" é necessário manter atenção e vigilância sobre o que se passa na Venezuela, "porque, embora tenha havido pequenos avanços, a grave crise humanitária continua, e os presos políticos continuam a ser torturados".
Denúncias de tortura, falta de cuidados médicos e números de presos políticos
A ativista afirmou também ter "os sentimentos à flor da pele", explicando que, há seis anos, tem um irmão preso e que este é "vítima de tortura, de maus-tratos e de opacidade, de violência institucional, de falta de cuidados médicos, de falta de justiça, pois lhes foi violado o direito ao devido processo legal".
Acrescentou ainda que o pai, Raul Isaías Baduel - antigo ministro da Defesa de Hugo Chávez - morreu na prisão há mais de quatro anos, nos braços do filho, por não ter recebido cuidados médicos a tempo.
"No ClippVe registamos mais de 40 presos políticos em estado de saúde crítico, entre eles o meu irmão, que sofre de muitas sequelas de tortura", frisou.
Aos jornalistas, Hiowanka Ávila, irmão de um preso político, considerou que "é urgente que as violações dos direitos humanos cessem na Venezuela".
Ávila lamentou que, apesar das denúncias, as autoridades não contactem os familiares para apurar o que se passa. "Há 116 dias que nos sentimos enganados e manipulados pelo Estado, no âmbito da Lei de Amnistia (...) prometeram libertações em massa, o que não aconteceu. Ainda há mais de 500 presos políticos", disse.
Maciel Cordones, mãe de um militar detido, declarou aos jornalistas que nas prisões de El Rodeo I, Yare e Tocorón são praticados tratamentos cruéis e desumanos contra os presos políticos.
Às autoridades, os familiares pedem que seja nomeada uma comissão imparcial da Cruz Vermelha para verificar o que acontece nas cadeias.
Dados atualizados da organização Justiça, Encontro e Perdão indicam que há 667 presos políticos na Venezuela, entre os quais cinco portugueses.
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