Maio, romarias e festas populares: a minha implicância com os fogos de artifício
Maio chega e, com ele, dá-se o arranque da temporada das romarias e das festas populares. A propósito desse calendário, deixo uma teimosia muito pessoal: os fogos de artifício.
Economia local e a falsa polémica do custo
Esta reflexão não segue o atalho fácil - e muitas vezes sensacionalista - do argumento "tanto dinheiro desperdiçado que podia estar a ajudar quem precisa". Pelo contrário: tal como acontece com as iluminações de Natal, estes momentos acabam por sustentar não só os profissionais diretamente envolvidos, como também o pequeno comércio familiar e a iniciativa empresarial.
Sem fechar os olhos a possíveis excessos, no Natal as iluminações funcionam como convite a passeios pelas ruas e ao contacto com o comércio local. Do mesmo modo, os concertos e os espetáculos de fogo de artifício atraem multidões às localidades em festa, com ganhos para vários negócios da zona - do artesanato à restauração, passando pelos divertimentos.
Cultura popular, ANEPE e a falta de entusiasmo
Sendo os fogos de artifício inseparáveis da cultura popular portuguesa, foi há pouco noticiado que a Associação Nacional de Empresas de Pirotecnia e Explosivos (ANEPE) está a preparar uma candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Aceito que estes espetáculos ajudam a marcar encontros, a criar momentos de convívio e a alimentar memórias partilhadas com família e amigos.
Ainda assim, consigo contar pelos dedos de uma mão as ocasiões em que vi um espetáculo e admiti, sem reservas, que tinha gostado. E nem preciso de mais do que os dedos das duas mãos para somar as vezes em que as pessoas ao meu lado mostraram verdadeiro agrado. O que mais frequentemente acontece é terminarmos a comentar como a qualidade parece ter vindo a baixar.
Sem entrar sequer nos efeitos nocivos mais óbvios - que o leitor facilmente saberá listar -, os fogos de artifício parecem ter-se transformado, sobretudo ao nível autárquico, num pequeno campeonato em que se valoriza a duração do espetáculo, como se esse critério fosse sinónimo de excelência. Mas trata-se de uma métrica fraca, que pouco diz sobre qualidade. Pôr estes eventos em causa será, claro, politicamente impopular; ainda assim, quando as preocupações estéticas ficam remetidas para segundo plano, também os incentivos à inovação se tornam mais raros.
Por isso, não posso deixar de aplaudir as apostas recentes - ainda que esporádicas - em alternativas como os espetáculos de luzes e drones. É verdade que trazem desafios e custos diferentes, mas a sua adoção pode estimular o desenvolvimento de tecnologias especializadas e menos intrusivas do ponto de vista sensorial, obrigando a pirotecnia a reposicionar-se e a disputar terreno pela qualidade.
No dia em que formos capazes de discutir com espírito crítico o fogo de artifício e o seu lugar na cultura popular - incluindo as suas externalidades - até eu deitarei foguetes... figurados, claro!
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