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Pedro Valdez Cardoso: «Criatura Ardente», «História de Violência» e «Depois do Sol»

Pessoa observa esculturas abstratas coloridas em escadas e corredor iluminado numa galeria de arte moderna.

Uma mostra mais contida de Pedro Valdez Cardoso

Desta vez, não se reconhece aquela evidência de uma invasão do espaço que marcara a última exposição de Pedro Valdez Cardoso (n. 1974) nesta galeria ("Pagan Days" ["Dias Pagãos"], 2023). O fogo que aqui parece consumir os corpos expostos aproxima-se, dir-se-ia, do que “arde sem se ver” camoniano - mas manifesta-se sobretudo como rasto e consequência, mais do que como presença plena. Em comparação com apresentações anteriores, tudo surge com uma discrição quase calculada.

A sala de entrada: «Criatura Ardente» e «História de Violência»

No primeiro espaço, os títulos “Criatura Ardente” e “História de Violência” acendem o campo de sentido de duas fotogravuras: nelas vêem-se rostos greco-latinos cobertos por conchas. Já “História de Violência” - que convoca a memória de um filme notável de David Cronenberg (2005) - acaba por se condensar numa grelha de janela, fechada com cadeado.


A cave: «Depois do Sol», «Pele» e «Uma Estranha Forma de Amor»

O segundo espaço, na cave da galeria, começa logo na escada: no chão, um tapete de folhas mortas (em papel kraft costurado) e, ao lado, ramos quebrados encostados a uma balaustrada frágil; dela pende, como deixado para trás, um boné. Este conjunto, “Depois do Sol” (2026), fará eco, para alguns, de uma célebre canção francesa de 1945, com versos de Prévert, que Yves Montand celebrizou.

A melancolia é evidente; porém, nas paredes da sala instala-se uma inquietação persistente. Aí encontra-se uma série de dez imagens cujo título, “Pele”, soa demasiado suave para aquilo que nelas habita. Algo semelhante sucede com “Uma Estranha Forma de Amor”: um conjunto de luvas de borracha tornadas impraticáveis por estarem costuradas pela abertura.

Por toda a exposição, cresce e adensa-se um mal-estar surdo. A tristeza de uma grade fechada e o abandono das folhas outonais chocam com o disforme - ou com o oculto - de um monstro sempre possível, ainda mais perturbador por não se ver: apenas se adivinha.

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